Faça gols, não guerra: a contribuição do futebol à paz mundial

A relação entre futebol e paz sempre polarizou opiniões. O potencial pacífico do esporte tem sido, de consistente, aceito pelos órgãos esportivos e gradualmente reconhecido pelas organizações políticas internacionais, mas permanece amplamente refutado pela mídia. O tratamento, de forma geral, concentra-se apenas na capacidade do jogo de inspirar o vandalismo xenófobo entre os seus seguidores ou em como ele foi explorado por políticos para fins nacionalistas.

No entanto, o futebol possui papel importante no cenário global, com referência à sua capacidade de criar entendimento entre os diferentes povos. A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) foi o primeiro órgão a reconhecer o papel do esporte internacional nesse objetivo de estabelecer a compreensão mútua e a paz. Em 2020, a Organização das Nações Unidas (ONU) lembrou a importância do esporte para a paz, mesmo durante a pandemia. Segundo o órgão, “o esporte tem o poder de mudar o mundo”. Longe de causar guerra, o futebol, em diversas ocasiões, já foi visto desempenhando algum apoio para manter ou realizar a paz 1. Seguem dois exemplos.

O apelo de Blatter para \’fazer gols, não guerra\’ foi feito pela primeira vez em 2004, quando a FIFA encorajou o Brasil a jogar um amistoso contra o Haiti como parte da missão de paz da ONU no país. A escolha da superpotência do futebol para esta tarefa foi duplamente pertinente. As tropas brasileiras representaram a maior contribuição dos pacificadores da ONU e seus jogadores de futebol são mantidos com grande afeição em grande parte do Caribe.

Depois de uma derrota confortável para sua seleção, contra os campeões mundiais de força máxima, o presidente haitiano Gérard Latortue exclamou que “algumas estrelas do futebol brasileiro poderiam fazer mais para desarmar milícias em guerra do que milhares de tropas de paz” 2. Este evento não foi o único e repetiu uma intervenção semelhante no futebol em 1969, quando o Santos participou de dois amistosos na Nigéria, organizados para aliviar as tensões em meio à Guerra de Biafra. Os dois lados da guerra concordaram com um cessar-fogo de três dias para que as/os biafrenses e nigerianas/os pudessem assistir seu herói em comum Pelé jogar.

O futebol também já foi usado como forma de facilitar a reconstrução do pós-guerra. Os jogos no Afeganistão entre as forças de ocupação e os habitantes locais fizeram parte das problemáticas campanhas de \’ganhar corações e mentes\’ dos ocupantes britânicos. A produção de lados nacionais tem sido uma característica proeminente da reconstrução em ambos os países, com particular pertinência devido ao fato do jogo ter sido proibido pelo Talibã e ao abuso de jogadores iraquianos que ocorreu sob o regime de Saddam Hussein. Uma seleção iraquiana, que não jogava mais com medo, viajou pela Inglaterra em 2004 e, notavelmente, chegou à semifinal do torneio olímpico de futebol no final daquele ano.

Nesse contexto, percebo que o futebol auxilia a promover a comunicação. Em diversas vezes, as pessoas e/ou nações se comunicam de forma insensível, sem estabelecer a compreensão mútua e a paz. “Faça gols, não faça guerra” pode parecer um slogan um tanto quanto banal, mas o futebol já demonstrou que consegue unir as nações. Evidentemente, não pode parar uma guerra ou eliminar a injustiça no mundo, mas, sem dúvida, pode contribuir de forma significativa.

 

REFERÊNCIAS

1 – ONU lembra importância de esporte para a paz, mesmo durante pandemia. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2020/04/1709462

2 – Football envy at the UM. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2006/jun/12/comment.worldcup2006

3 – HOUGH, Peter. ‘Make goals not war’: the contribution of international football to world peace. The International journal of the History of Sport, v. 25, n. 10, p. 1287-1305, 2008.

 

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Autor: Thiago Bruno de Jesus Silva

Doutor em Contabilidade (2020) pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mestre em Ciências Contábeis (2016) pela Universidade Regional de Blumenau (FURB), Especialista em Controladoria (2013) e Bacharel em Ciências Contábeis (2012) pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Trabalha com as grandes áreas de Administração e Ciências Contábeis, com ênfase nas seguintes temáticas: Planejamento e Controle Organizacional, Gestão de Clubes de Futebol, Gestão de Cooperativas, Gestão no Agronegócio, Governança Corporativa e Administração e Gestão Pública. Atualmente é Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). E-mail: thiagobruno@ufrb.edu.br

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